sexta-feira, 7 de julho de 2017

Exemplaridade cívica


Somos cidadãos de um país em que o quotidiano político-mediático, hoje “democratizado” pelas redes sociais, vive numa quase completa relativização dos valores, em permanente suspeição sobre tudo e sobre todos. Quase não há mérito que sobreviva ao innuendo recorrente, que, no fundo, mais não é do que uma forma pouco sofisticada de despeito e inveja. O destaque e o sucesso incomodam, estimulando as mais doentias teorias conspirativas.  Estranhamente, isso parece trazer, nos dias que correm, um conforto igualitário à sociedade. 

Há mesmo, na parapolítica das carreiras públicas frustradas, algumas autoproclamadas vestais éticas que fazem da má-língua impune o seu “fond de commerce”, tendo como “eleitorado” uma classe de ódios mesquinhos, que hoje pulula nas caixas de comentários. Dir-se-á que a caravana, não obstante, vai passando. Talvez, mas convenhamos que tudo isto diz bastante do estado de saúde cívica do nosso país.

Há dias, a Universidade Nova de Lisboa atribuiu a Artur Santos Silva o seu doutoramento “honoris causa”. Na altura, dei comigo a pensar que, apesar de tudo quanto atrás referi, há figuras cuja exemplaridade de percurso as mantém relativamente à margem da máquina medíocre do denegrimento. E, confesso, acho que Portugal deve ficar feliz por isso. 

Artur Santos Silva é, para mim, e desde há muito, a personalização discreta da ética na vida cívica portuguesa. Oriundo de uma família liberal do Porto, cedo foi educado no culto da liberdade. Passou brevemente pela política e, tendo decidido adotar a independência como modo de vida, prestigiou-se profissionalmente, vindo a ser o criador de uma instituição bancária de referência, tendo trabalhado ainda em gestão empresarial. Pelo caminho, não deixou de intervir na vida pública, a seu modo e de forma equilibrada, com permanente bom-senso, grangeando um raro respeito alargado. A cultura esteve sempre nos seus genes. Da Fundação de Serralves ao Porto Capital da Cultura (onde mostrou saber bater fragorosamente com a porta, quando isso se revelou imperativo), passando pela (sua) Universidade de Coimbra, Artur Santos Silva viria a titular com sucesso, na Fundação Calouste Gulbenkian, a presidência da mais importante instituição cultural do país,  numa conjuntura bastante complexa da respetiva existência. Pelo meio, ficou também a liderança da comissão para a comemoração do Centenário da República - uma vez mais, o culto da ética republicana que sempre foi a sua.

Artur Santos Silva pode, muito simplesmente, ser qualificado como um grande homem de bem. Lamento que o país, em alguns ciclos de atribuição de responsabilidades para a sua gestão coletiva, não tenha tido a sabedoria de o aproveitar nas mais altas funções de Estado. Portugal teria ganho bastante com isso.

3 comentários:

Anónimo disse...

+1

JPGarcia

Anónimo disse...

Mas existe assim no espaço público visível tanta gente de quem possamos elogiar méritos?

Fico-me pelos jornalistas: Paulo Ferreira, António Costa, Helena Garrido, António Ribeiro Ferreira, Judite Sousa, Vítor Gonçalves, José Rodrigues dos Santos, Paulo Baldaia, David Dinis, José Gomes Ferreira, Camilo Lourenço, José Manuel Fernandes, Pedro Sousa Carvalho, João Vieira Pereira.

Mas há algum préstimo neste grupelho há anos sempre no poder da comunicação social? Vendas miseráveis, opiniões engajadas com o mais reles trauliteirismo dos interesses a quem acodem prosélitos e com a sanha do cristão-novo.

E quem convidam para ouvir? Outros mesmos.

Anónimo disse...

O seu post é muito verdadeiro e mostra a quase impossibilidade de fazer carreira em Portugal, oceano de invejas e de achamentos.